União Vegetariana Internacional (IVU)
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Os lacticínios não são a resposta à deficiência de cálcio
por Alex Press
De The VivaVine (November/December 1997 

Em meados de agosto, um painel promovido pela National Academy of Sciences (Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, conhecida como NAS) aumentou a ingestão diária de cálcio, recomendada para pessoas com idade entre 19 e 50 anos, de 800 miligramas para assustadores 1.000mg , bem mais do que os 500 mg a 700 mg ingeridos em média por um americano adulto. Para os participantes e os meios de comunicação, isto significava apenas uma coisa: coma mais laticínios. Mas em meio a toda a publicidade gratuita para os fabricantes de laticínios, várias questões básicas ficaram sem resposta.
Em primeiro lugar, se o leite de vaca for parte essencial da nutrição humana, como todos dizem, como é que se explica que três quartos da população do mundo têm intolerância à lactose? E em segundo lugar, como se explica o fato de que nações com o consumo mais alto de laticínios - Estados Unidos, Finlândia, Suécia e Reino Unido - também apresentam as taxas mais altas de osteoporose?

O cálcio, fundamental para a manutenção da densidade óssea, tornou-se obsessão nacional. E isso não espanta. Mais de 25 milhões de americanos, 80% deles mulheres, têm osteoporose - ossos fracos e quebradiços sujeitos a quebras. A cada ano, nos Estados Unidos, a doença provoca 1,5 milhão de fraturas de quadril e custos médicos e hospitalares de US$ 13,8 milhões. Mas os laticínios serão a solução?

Quase todas as notícias da imprensa enfatizam que mil miligramas de cálcio equivalem a três e meio copos de 250ml de leite. As fontes não-lácteas, quando mencionadas, são pouco mais que notas de rodapé. Uma conferencista da NAS, professora de nutrição da Purdue University, garantiu que, em seu esforço para evitar gorduras, os americanos estavam desprezando a importância dos laticínios. "É por isso que, de cada quatro mulheres, uma
sofrerá fratura do quadril durante sua vida", disse ela ao jornal USA Today. Em entrevista ao New York Times, a mesma especialista explicou as recomendações do painel: "Estamos falando em comer cereais com leite no café da manhã e iogurte e leite ou queijo no almoço e no jantar."

Dois dias depois de publicar uma carta do escritor vegan Erik Marcus, que dizia existirem - acredite se quiser - alternativas vegetais aos laticínios, o Times divulgou a suspeita resposta de um nutricionista de Boston que afirmava que o brócolis continha meros 36mg por xícara. Isso não só está errado - o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos dá este valor para meia xícara de brócolis cozido em água - como esquece fontes não-lácteas mais ricas, como couve-nabiça, couve-manteiga, tofu, algas e amêndoas. E contrariamente à carta, o cálcio das verduras é rapidamente absorvido. Na verdade, a taxa de absorção do cálcio da couve-nabiça é maior que a do leite.

No entanto, em meio a todas as distorções e omissões, a mais perturbadora foi a indiferença frente a uma verdade alimentícia fundamental: a osteoporose é um problema de retenção de cálcio, não de sua ingestão. Numerosos estudos comprovam que a perda de cálcio é resultante da ingestão excessiva de proteína na dieta, em especial de proteína animal, que é
endêmica nas sociedades ocidentais mais ricas. Daí, a ironia: o maior consumo de laticínios está ligado à maior, e não à menor, incidência de osteoporose.

A verdade é: os americanos, como outros seres humanos, não têm necessidade de ingerir secreções mamárias de vacas nem de nenhum outro mamífero além de suas próprias mães. Esta é a verdade. A resposta à deficiência de cálcio não é comer mais laticínios; é comer menos proteína animal.

Tradução: Beatriz Medina